CASTELO INTERIOR – Cap 2,12-18

  1. Destas primeiras moradas posso eu dar sinais muito certos, por experiência. Por isso digo que não considerem poucos aposentos, senão um milhão deles; porque, de muitas maneiras, entram aqui almas, umas e outras com boa intenção. Mas, como o demônio sempre a tem tão má, deve terem cada um muitas legiões de demônios a combater para que não passem de uns a outros. Como a pobre alma não o entende, por mil maneiras nos engana, o que não pode fazer já tanto às que estão mais perto onde está o Rei Aqui, porém, como ainda estão embebidas no mundo e engolfadas em seus contentos e desvanecidas com suas honras e pretensões, não têm força os vassalos da alma (que são os sentidos e potências naturais que Deus lhe deu), e facilmente estas almas são vencidas, embora andem com desejos de não ofender a Deus, e façam boas obras. As que se virem neste estado precisam de recorrer amiúde, como puderem, a Sua Majestade, tomar a Sua bendita Mãe por intercessora e a Seus santos, para que pelejem por elas, pois os seus criados pouca força têm para se defender. E, na verdade, em todos os estados é necessário que ela nos venha de Deus. Sua majestade no-la dê por Sua misericórdia, amém.
  2. Que miserável é a vida em que vivemos! Porque, em outra parte, disse muito do dano que nos faz, filhas, não entender bem isto da humildade e do próprio conhecimento, nada mais vos digo aqui, ainda que seja o que mais importa, e praza a Deus tenha dito alguma coisa que vos aproveite.
  3. Haveis de notar que, nestas primeiras moradas, ainda não chega quase nada da luz que sai do palácio onde está o Rei; porque, embora não estejam obscurecidas e negras como quando a alma está em pecado, estão de alguma maneira obscurecidas para poderem ver quem está nelas e não por culpa do aposento – não me sei dar a entender -, mas porque entraram com a alma tantas coisas más de cobras e víboras e coisas peçonhentas que não a deixam reparar na luz. É como se alguém entrasse em um lugar aonde entra muito sol e levasse terra nos olhos, que quase os não pudesse abrir. O aposento está claro, mas ela não o goza pelo impedimento destas feras e alimárias que lhe fazem cerrar os olhos para não ver senão a elas. Assim me parece deve ser uma alma que, embora não esteja em mau estado, está tão metida em coisas do mundo e tão embebida com sua fazenda ou honra ou negócios – como disse – que, ainda que de fato e verdade queira ver e gozar da Sua formosura, não a deixam nem parece que possa desembaraçar-se de tantos impedimentos. E convém muito, para entrar nas segundas moradas, que procure dar de mão às coisas e negócios não necessários, cada um conforme à seu estado; é coisa que lhe importa tanto para chegar à morada principal, que, se não começa a fazer isto, o tenho por impossível; e até mesmo o estar sem muito perigo naquela em que está, embora já tenha entrado no castelo, porque entre coisas tão peçonhentas, uma vez ou outra é impossível que deixem de lhe morder.
  4. 15. Pois que seria, filhas, se às que já estão livres destes tropeços, como nós, e entrámos já muito mais adentro de outras moradas secretas do castelo, se por nossa culpa tornássemos a sair para estas barafundas, como por nossos pecados deve haver muitas pessoas a quem Deus faz mercês, e por sua culpa se lançam nesta miséria? Aqui estamos livres quanto ao exterior; no interior, praza ao Senhor que o estejamos e que Ele nos livre. Guardai-vos, filhas minhas, de cuidados alheios. Olhai que em poucas moradas deste castelo deixam de combater os demônios. É verdade que em algumas têm força os guardas para pelejar, que são as potências – como creio ter dito -; mas é muito necessário não nos descuidarmos para entender seus ardis e não nos engane o demônio feito anjo de luz; pois há uma multidão de coisas com que ele nos pode fazer dano, pouco a pouco, e, até que o faça, não o entendemos.
  5. Já vos disse de outra vez que ele é como uma lima surda, que é preciso entendê-lo nos princípios. Quero dizer alguma coisa para vo-lo dar melhor a entender. Dá ele a uma irmã vários ímpetos de penitência, e a esta lhe parece que não tem descanso senão quando se está atormentando. Este princípio é bom; mas, se a prioresa mandou que não façam penitências sem licença e o demônio lhe faz parecer que a coisa tão boa bem se pode atrever, e às escondidas se dá a tal vida que vem a perder a saúde e não poder fazer o que manda a sua Regra, já vedes em que vai parar tal bem. Dá a outra um zelo de perfeição muito grande. Isto é muito bom; mas poderá vir daqui, que qualquer faltita das irmãs lhe pareça uma grande quebra e assim vir-lhe o cuidado de ver se as fazem, e de recorrer à prioresa; e até, às vezes, poderá ser ela não ver as suas próprias faltas pelo grande zelo que tem da Religião; como as outras não vêm o interior, e vêm o cuidado exterior, poderia ser que o não tomassem tanto a bem.
  6. O que aqui pretende o demônio não é pouco; é esfriar a caridade e o amor de umas para com as outras, o que seria grande dano. Entendamos, minhas filhas, que a perfeição verdadeira é amor de Deus e do próximo e, com quanto mais perfeição guardarmos estes dois mandamentos, seremos mais perfeitas. Toda a nossa Regra e Constituições não servem para outra coisa, senão de meios para guardar isto com mais perfeição. Deixemo-nos de zelos indiscretos, que nos podem fazer muito dano. Cada uma olhe para si mesma. Porque noutra parte vos falei largamente sobre isto, não me alongarei.
  7. Importa tanto este amor de umas para com as outras, que eu nunca quereria que dele vos esquecêsseis; porque, de andar olhando nas outras a umas ninharias que às vezes não será imperfeição, mas, como sabemos pouco, talvez o lançaremos à pior parte, pode a alma perder a paz e ainda inquietar a das outras. Vede como custaria caro a perfeição! Também poderia o demônio trazer esta tentação para com a prioresa e seria mais perigosa. Para isto é mister muita discrição: porque, se forem coisas que vão contra a Regra e Constituição, é preciso que nem sempre se lancem à boa parte, mas sim avisá-la; e, se não se emendar, ao Prelado: isto é caridade. E também para com as irmãs, se fosse alguma coisa grave; deixar passar tudo com medo de que seja tentação, seria a mesma tentação. Mas é preciso ponderar muito (não nos engane o demônio) não o tratar umas com as outras, pois disso pode o demônio tirar grande proveito e começar o costume da murmuração; mas apenas tratá-lo com quem há-de aproveitar, como já disse.Aqui, glória a Deus, não há tanta ocasião para isso, porque se guarda tão contínuo silêncio; mas é bom que estejamos de sobreaviso.
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